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Sofia Reimão escreve, na página 67 do livro referenciado em rodapé:

“Para Gadamer, o Homem, ao contrário dos animais, caracteriza-se exatamente pela sua vontade de transcender o próprio corpo.” [entenda-se, transcender o próprio corpo superando a morte]

O problema aqui é o conceito de “vontade”. O conceito de “vontade” aplicado ao ser humano, segundo Gadamer, funda-se em Schopenhauer e continua em Nietzsche. Provavelmente, Gadamer continua o prolongamento de Nietzsche em Heidegger (as ideias têm consequências).

Ora, este conceito de “vontade” segundo Schopenhauer e Nietzsche, é, para além de absurdo, perigoso, porque a “vontade” entendida nesse sentido é desprovida de qualquer referência a valores, e é mesmo irracional — irracional no sentido de ser a recusa consciente da razão [niilismo].

A vontade, em primeiro lugar, é psicológica e define uma qualidade do carácter: uma pessoa tem vontade porque quer, persevera nas suas escolhas, e mantém firmes as suas decisões e objetivos. Em segundo lugar, a vontade é jurídica, quando a lei estabelece o contraste entre o voluntário e o involuntário. E, quanto à vontade no ser humano, estamos conversados.

A possibilidade de uma pessoa dizer sim ou não, face às diversas escolhas contingentes da vida prática, é o livre-arbítrio e não propriamente “vontade”. A esse livre-arbítrio, chama-se também de “vontade infinita” quando se traduz erroneamente o impulso instintivo por vontade. A vontade não é instinto.

Gadamer confunde “vontade” e ”instinto” — na linha de Schopenhauer, Nietzsche e Heidegger. E mais grave: confunde ”instinto” e ”intuição”.

A proposição seria consentânea com o real se disse assim:

“O Homem, ao contrário dos animais, caracteriza-se exatamente pela intuição de transcender o próprio corpo.”

 

http://espectivas.wordpress.com/2013/02/08/a-vontade-e-a-transcendencia/

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