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O que é a mudança?

Normalmente, a mudança é entendida à luz da dialética de Hegel que descambou no materialismo dialético. Quando falamos hoje em mudança, vem-nos à mente, e de forma mais ou menos inconsciente, o movimento triádico criado por Hegel de tese, antítese e síntese, como três compassos necessários à valsa fatídica da História.

Hegel parte do princípio — e/ou chega à conclusão — de que o Todo é o resultado da soma das Partes, e é neste princípio [errado!] que assenta a dialética de Hegel.

1) Tomemos, por exemplo, dois elétrons [idênticos; os elétrons são quase sempre idênticos]: o elétron 1, e o elétron 2. Os dois elétrons são lançados a partir de uma mesma fonte em direções opostas: o elétron 1 para a esquerda, e o elétron 2 para a direita.

2) Cada um dos dois elétrons é caracterizado pelo seu estado interno [vetor de estado], seja (a) ou (b); e também pela sua localização [ a localização diferenciada de ambos os elétrons ]. No caso deste exemplo, partamos do princípio segundo o qual ambos os elétrons não podem estar no mesmo estado interno; ou seja, se o elétron 1 está no estado (a), então segue-se que o elétron 2 está no estado (b), e vice-versa.

3) Vamos representar o vetor de estado — também conhecido como Função Ondulatória Quântica — com o símbolo Ψ.

4) Podemos então deduzir que Ψ 1 (a) representa o elétron 1 no estado (a), e que Ψ 2 (b) representa o elétron 2 no estado (b). Isto significa que o vetor de estado do par de elétrons é o seguinte:

Ψ 12 = Ψ 1 (a) * Ψ 2 (b)

Esta função significa que o elétron 1 está no estado (a), e o elétron 2 está no estado (b).

5) Mas se for o caso oposto, então o vetor de estado do par de elétrons será:

Ψ 21 = Ψ 2 (a) * Ψ 1 (b)

6) O verdadeiro problema coloca-se agora, porque não sabemos, a priori, qual das duas situações é a que existe realmente — se a situação expressa no ponto 4, ou se a situação expressa no ponto 5. O máximo que podemos dizer é que a probabilidade de acontecer uma ou outra situação é equivalente. Decorre desta dificuldade a necessidade lógica e objetiva de refazer as duas funções supracitadas, como segue:

Ψ par = Ψ 12 + Ψ 21

Neste vetor de estado Ψ par, não podemos já separar o que pertence ao elétron 1 e o que pertence ao elétron 2. O vetor de estado Ψ par não é decomponível em fatores: é constituído por uma soma irredutível!

7) A partir do momento que em que chegamos à conclusão objetiva segundo a qual o Ψ par é constituído por uma soma irredutível, isto significa que o par de elétrons, entendidos enquanto par, “viajam” em estado de onda quântica e, portanto, ou com massa residual ou mesmo sem massa [“correlações quânticas”]. Em tese, Ψ par não é matéria propriamente dita, e opera no “espaço abstrato” [que é eufemismo simbólico da matemática formal para uma noção que o materialismo não consegue entender; é parecido, por exemplo, com a noção tradicional de “infinito”].

8) Segue-se, portanto, que o conhecimento de apenas Ψ par não permite conhecer o estado individual de cada um dos elétrons do par — porque não sabemos dizer, por exemplo, se é o elétron 1 ou o elétron 2 que está no estado (a). Estamos, portanto, numa situação em que a descrição do Todo (o par, ou Ψ par) já não implica a descrição das suas partes (os elétrons que compõem o par).

A descrição de exata das partes Ψ par, ou seja, a descrição exata dos vetores de estado Ψ 12 e Ψ 21 considerados isoladamente, não considera a possibilidade de existirem “correlações quânticas” dentro do par.

Corolário: de uma forma objetiva podemos afirmar que o Todo não é produto da soma das Partes! E mais: o conhecimento das Partes não determina o Todo!

Seria loucura alguém dizer que a realidade quântica — ou seja, aquilo que se passa no mundo quântico — não tem influência nenhuma na realidade macroscópica — ou seja, o mundo dos nossos sentidos e da nossa percepção.

Portanto, podemos dizer que o movimento real da mudança não é seguramente triádico como defendeu Hegel e Karl Marx, mas antes será, no mínimo, quaternário: existe, pelo menos, mais um quarto componente da mudança que não depende das partes envolvidas no processo de mudança, o que significa que o Todo é mais do que mera relação entre as Partes envolvidas no processo de mudança.

A “mudança” não é uma valsa triádica: antes, pode ser eventualmente um tango quaternário!

E na medida em que “o Todo é mais do que mera relação entre as Partes”, qualquer relação lógica estabelecida entre “mudança”, por um lado, e “valores”, por outro lado, torna-se absurda.

Fonte: http://espectivas.wordpress.com/2012/08/07/a-nocao-dialectica-hegeliana-de-mudanca-e-a-filosofia-quantica/

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