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1.      Kant tinha uma extraordinária visão da investigação científica, e portanto da ciência, mediante o conceito de Intenção da Natureza. Kant insistiu [“Crítica do Juízo”, 1790] que embora não pudéssemos provar que a natureza esteja intencionalmente organizada, devemos sistematizar o nosso conhecimento empírico vendo a natureza como se fosse organizada. Isto significa a ideia de uma ordem pré-estabelecida; e a sistematização do nosso conhecimento é apenas possível se agirmos com base no pressuposto de que uma “compreensão”, ou uma “inteligência”, para além da nossa, nos forneceu leis empíricas organizadas de modo a que nos seja possível uma experiência unificada.

O Princípio da Intenção da Natureza — ou Princípio da Intencionalidade — diz-nos que se queremos construir uma subordinação sistemática das leis empíricas, devemos agir de acordo com a crença de que tal pretensão é possível.

2.      Muita da ciência contemporânea, e sobretudo as ciências biológicas, afastaram-se radicalmente do Princípio da Intencionalidade que, mesmo durante o século XIX e a primeira parte do século XX, esteve fortemente presente na ciência e na investigação científica e apesar do Positivismo: uma coisa era o método científico; e outra coisa era o cientista comum e a sua mundividência. A partir do século XX, primeiro com o Círculo de Viena e depois com o neodarwinismo, essa ligação tradicional e inconsciente da comunidade científica, em geral, com o Princípio kantiano da Intencionalidade da Natureza, foi quebrado.

3.      O “divórcio” da ciência com o Princípio da Intencionalidade de Kant significou também a quebra das relações — sempre precárias — entre a ciência e a filosofia. O Positivismo encarado não só como método, mas também como a mundividência do cientista, decretou a morte da filosofia. Este problema subsiste até hoje. A única “filosofia” aceite pela ciência parece ser aquela que corrobora uma certa visão exclusivamente naturalista coeva que evoluiu do Positivismo. Desde logo, uma filosofia sem espírito crítico não é filosofia; e depois, uma filosofia acrítica em relação à ciência pode ser mesmo prejudicial a esta última.

4.      No dia em que o trabalho científico tiver perdido totalmente o contato com as suas raízes especulativas e filosóficas, ficará completamente esgotado e cortado da tradição que o levou ao seu nível contemporâneo. E este risco existe. O pensamento técnico/tecnicista invade o pensamento científico, e isso pode ser o fim do espírito científico.

5.      A ciência não vai nunca até ao fim das questões que levanta, e levar as questões até ao fim é o papel da filosofia. O campo da ciência já não é autonomo. Hoje, a fecundidade intelectual e o pensamento vivo consistem no diálogo entre a ciência e a filosofia [propriamente dita].

 Fonte: http://espectivas.wordpress.com/2012/07/27/a-filosofia-esta-bem-viva/

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