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Malebranche * é conhecido por seu ocasionalismo, isto é, sua doutrina de que Deus é o único agente causal, e que as criaturas meramente proporcionam a “ocasião” para a ação divina. Para o registro primevo o ocasionalismo foi uma resposta ad hoc ao problema percebido em Descartes, acerca de como substâncias distintas em natureza tal como a mente e corpo podem interagir causalmente. Segundo esse registro, Malebranche foi levado por esse problema do dualismo cartesiano a propor que é Deus o responsável pela correlação entre as nossas sensações e volições e os movimentos em nosso corpo.

No entanto, o ocasionalismo já era uma doutrina antiga quando Tomás de Aquino (1225-1274) se manifestou contra ela. Tomás demonstrou que a primeira preocupação dos ocasionalistas era enfatizar a asserção da onipotência de Deus. Embora tenha reconhecido que Deus precisa “cooperar” com as criaturas na produção de efeitos, Tomás também declarou que há motivo para concluir que as criaturas são causas secundárias genuínas. Por exemplo, ele recomendou que está mais em acordo com a grandeza divina dizer que Deus comunica Seu poder às criaturas. Além disso, afirmou que é claramente evidente aos sentidos que criaturas têm o poder de produzir efeitos. Tomás também argumentou que se não existissem características nas criaturas que implicassem efeitos, não poderiam haver explicações científicas verdadeiras aos efeitos por conta de suas causas naturais.

Malebranche preocupou-se em responder a todos esses argumentos contra o ocasionalismo, sobretudo porque foram desenvolvidos nas obras de escolásticos como Suárez. Sobre o primeiro ponto, que a grandeza de Deus requer a comunicação do Seu poder, ele se opôs dizendo que de fato é idolatria atribuir poder divino a criaturas. Segundo Malebranche, que Deus somente pode produzir efeitos é algo que se fia na suposição “uma causa genuína…é uma tal que a mente percebe uma conexão necessária [liaison nécessaire] entre ela e seus efeitos” (Malebranche 1958-84, 2:316). Ele declarou que não há tal conexão, nem entre estados materiais, nem entre estados materiais e mentais, nem entre estados mentais. Em todos esses casos, uma pessoa pode negar essas conexões sem se contradizer. Pode ser o caso de existir uma conexão causal necessária em somente um caso, isto é, a conexão entre as volições de um agente onipotente e seus resultados. Assim, somente um tal agente, isto é, Deus, pode ser uma causa real.

Em Entretiens sur la métaphysique, Malebranche ofereceu um argumento diferente baseando-se na sugestão de Descartes em “Meditação III”, que Deus conserva o mundo por sua contínua criação. O argumento inicia com a reivindicação que Deus precisa criar corpos em locais específicos e determinar relações de distância para com os demais corpos. Se Deus conserva um corpo criando-o no mesmo lugar momento a momento,
esse corpo permanece em repouso, e se Ele o conserva criando-o em diferentes lugares momento a momento, ele está em movimento. Nós não podemos nem mesmo criar movimentos em nossos próprios corpos. Antes, Deus é quem precisa efetuá-los na ocasião dos estados volitivos. Além disso, não são os movimentos em nosso cérebro que causam os nossos estados sensoriais, mas Deus é quem os produz na ocasião desses movimentos. Por fim, eu indiquei a visão em Entretiens segundo a qual Deus produz os
nossos estados intelectuais pela associação da nossa mente à Sua “extensão inteligível”. Embora o argumento da necessidade da conexão causal implique que somente um ser onipotente pode ser uma causa, o argumento aqui é que somente esse ser que cria/conserva o mundo pode causar diferentes estados corporais e mentais. Contudo, ambos os argumentos convergem à conclusão, que Malebranche alegou encontrar em Agostinho, de que todas as criaturas dependem totalmente de Deus.

O segundo argumento escolástico contra o ocasionalismo apelou ao fato sugerido de que é evidente aos sentidos que criaturas têm poder causal. Para Malebranche, no entanto, esse argumento não é mais persuasivo do que o argumento que corpos precisam ter cores e gostos já que os nossos sentidos nos dizem que eles os têm. Como mostrado abaixo, Malebranche apresentou uma base cartesiana para o pensamento que o propósito das nossas sensações não é revelar a verdadeira natureza do mundo material, mas antes,
de apontar o que é útil ou prejudicial ao nosso corpo. Malebranche sustentou que a nossa atribuição de poderes causais aos corpos expressa no seu particular uma ligação com o corpo que é um efeito do pecado original. Por conta dessa ligação, nós tomamos objetos do mundo material como sendo uma causa da nossa felicidade, antes que Deus.

Em “Eclaircissement XV”, Malebranche respondeu à crítica escolástica de que o ocasionalismo torna a explicação científica impossível recorrendo ao fato que Deus não é um agente arbitrário, mas atua de acordo com a Sua sabedoria. Essa sabedoria determina que Ele aja “quase constantemente” nos termos de uma “vontade geral ** e eficaz”. Tal vontade produz efeitos que são perfeitamente idênticos a leis. Por exemplo,
Deus opera por uma vontade geral na produção de mudanças em corpos de acordo com a lei da transmissão de movimento. Malebranche consentiu que Deus pode produzir milagres por “volições particulares” que não são idênticas a leis. No entanto, ele enfatizou que existem relativamente poucas dessas volições em Deus. Assim, nós podemos oferecer explicações científicas que recorrem às leis do movimento refletindo a natureza da vontade geral de Deus.

Malebranche não foi o primeiro cartesiano a endossar o ocasionalismo. Seguidores de Descartes como Louis de la Forge (1632-1666) e Claude Clerselier (1614-1684) enfatizaram, à luz da passividade da visão cartesiana, que Deus precisa ser a causa da transmissão de movimento nas colisões dos corpos. Esses cartesianos tentaram reservar algum espaço à ação de mentes finitas sobre o corpo, mas o cartesiano Geraud de Cordemoy (1626-1684) reivindicou mais adiante que somente Deus pode causar mudanças no mundo material. No entanto, nenhum desses pensadores foi tão longe como Malebranche em sua defesa de que Deus precisa produzir todas as mudanças reais na natureza. Além disso, Malebranche se distingue por oferecer uma explicação para a ação de Deus que diferencia Sua vontade geral das Suas volições particulares.

Fonte: Stanford Encyclopedia of Philosophy
http://plato.stanford.edu/

* O cartesiano francês Nicolas Malebranche foi saudado por seu contemporâneo, Pierre Bayle, como “o mais destacado filósofo da nossa era”. No decurso da sua carreira filosófica, Malebranche publicou obras importantes sobre metafísica, teologia e ética, bem como estudos sobre óptica, leis do movimento e a natureza das cores. Ele é conhecido principalmente por oferecer uma síntese muito original das visões dos seus heróis intelectuais, Santo Agostinho e René Descartes. Dois resultados distintos dessa síntese são adoutrina de Malebranche de que vemos corpos por meio de idéias em Deus e sua conclusão ocasionalista de que Deus é a única causa real.

* *N. do T.: no sentido de ordinária, regular.

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