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A ideia propalada segundo a qual Nietzsche “concebeu” a teoria do Eterno Retorno, é falsa. De fato, pouco há de original em Nietzsche em relação a esta teoria. Dizem-nos, de uma forma muito vaga ― como convém à mistificação dos admiradores doentios de Nietzsche (que se multiplicaram no pós-modernismo da decadência europeia) sobre a sua alegada autoria da teoria do Eterno Retorno ― que Nietzsche se inspirou nos pitagóricos; e é verdade. E também é verdade que alguns pitagóricos tinham já, no seu tempo, a noção matemática de “zero” que é de origem indiana; se tivermos em conta que a numeração romana ainda não incluía a noção de “zero”, e que só depois de Maomé e do império árabe islâmico se assimilou a noção de “zero” na Europa a partir da influência cultural indiana que os islamitas trouxeram consigo, concluímos que de alguma forma e por algum meio existiu um intercâmbio cultural entre os pitagóricos e a Índia.

É interessante verificar que o secularismo e o consequente niilismo anunciados por Nietzsche inserem-se eles próprios na teoria do Eterno Retorno. Embora a História não se repita, podemos dizer que existem “situações históricas” que se assemelham. Assim como não podemos dizer que “todas as primaveras são iguais”, podemos contudo dizer que “as primaveras se sucedem” trazendo consigo determinadas características cosmológicas que o ser humano identifica e vivencia, e neste sentido podemos dizer que existe um Eterno Retorno ou uma “repetição histórica”.

Porém, e se é verdade que o universo está em expansão a partir do Big Bang, o Eterno Retorno segundo Nietzsche (com origem nos pitagóricos e outros antes destes) constitui-se como uma ilusão de percepção por parte do observador terrestre, porque o ponto do espaço-tempo em que se encontra o observador em determinado instante não será nunca o mesmo quando o cosmos cumprir a sua marcha sobre si próprio. Podemos dizer que o Espaço-tempo evolui simultaneamente em dupla dimensão: a primeira através de uma revolução sobre um eixo cósmico, e a segunda através de uma expansão cósmica causada pela singularidade do primeiro instante do Tempo. Essa dupla dimensão da evolução do espaço-tempo assemelha-se a uma progressão em espiral que se abre progressivamente sob a condição da marcha do Tempo, e a partir de um ponto ou instante primordial da singularidade.

Neste sentido, o retorno ao “início do tempo” cósmico será como um retorno à primavera que se sucedeu à anterior ― em que os acontecimentos não se repetem mas onde existem antes as condições para que aconteça a realidade sob determinadas condições objetivas que são semelhantes à anterior. Se, como dizia Heraclito, “nunca passa a mesma água sob a mesma ponte”, a verdade é que mesmo assim passa sempre água sob a ponte; o fato de a água que passa sob a ponte não ser exatamente a mesma que passou no instante anterior, não significa que aquela que passa depois ou antes desse determinado instante, deixe de ter a qualidade do H2O.

Em circunstâncias muito parecidas com as do tempo de Nietzsche em relação ao cristianismo, a teoria do Eterno Retorno surgiu na Índia como produto de uma secularização em determinado tempo da história do hinduísmo.

Para o Homem provido de sensibilidade religiosa ― que revela a sua inteligência intuitiva ―, a sucessão do calendário cósmico é visto como um sinal de esperança e de cumprimento dos desígnios da Causa do cosmos. Para ele, a sucessão das estações do ano, por exemplo, anunciam a renovação da vida e o eterno encontro simbólico com o mesmo tempo da origem do cosmos e da Causa Primeira ― e é graças a este Eterno Retorno às origens do sagrado e do real que a existência humana se salva do nada e da morte eterna. Por isso, para o Homem religioso, o Eterno Retorno presente na natureza é sinal de otimismo e de esperança.

O mesmo não se passa com o Homem não-religioso que é a consequência de uma sociedade dessacralizada pelas elites intelectuais que se desligam progressivamente dos padrões naturais da religiosidade humana. O Homem não-religioso não deixa de ter a sua religiosidade intrínseca como a tem o Homem religioso: apenas a aliena, desvia-a da própria intencionalidade cósmica primordial. Assim, o Homem não-religioso, em função da sua própria alienação, passa a considerar a santificação periódica do Tempo cósmico ― como é, para os cristãos, o tempo sagrado do Natal que se fez artificialmente coincidir com o solstício de inverno ― como sendo inútil e sem significado.

A Causa Primeira já não é acessível ao Homem não-religioso através dos ritmos cósmicos. A significação religiosa da repetição dos “gestos” cósmicos é esquecida, e a partir daqui, a repetição da natureza esvaziada do seu conteúdo religioso conduz necessariamente a uma visão pessimista da existência. Para o Homem não-religioso, o Tempo cíclico torna-se insuportavelmente terrível na medida em que se revela como um círculo rodando indefinidamente sobre si mesmo, repetindo-se até ao infinito.

Foi o que aconteceu com a teoria indiana do Yuga das elites secularizadas a partir do hinduísmo. Um ciclo cósmico completo, um mahâyuga, compreende doze mil anos e termina com uma “dissolução” (pralaya) que se repete de uma maneira mais radical (mahâpralaya, a Grande Dissolução) no fim do milésimo ciclo. Assim, o esquema exemplar da “criação ― destruição ― criação” reproduz-se até ao infinito. Os doze mil anos de um mahâyuga eram considerados como “anos divinos”, durando cada um deles trezentos e sessenta anos, o que dava um total de quatro milhões trezentos e vinte mil anos para um só ciclo cósmico. Mil mahâyuga constituíam um Kalpa (que significa “forma”, em sânscrito); catorze Kalpa faziam um manvantâra. Um Kalpa equivalia a um dia de vida de Brahma ― o Deus do hinduísmo ― e um outro Kalpa correspondia a uma noite da vida de Brahma. Cem dos “anos” de Brahma ― ou seja, trezentos e onze mil milhares de anos humanos ― constituem a vida do Deus hindu. Mas mesmo esta duração considerável da vida de Brahma não conseguia esgotar o Tempo, porque segundo essas elites intelectuais seculares indianas, nem Deus é eterno e as criações e destruições cósmicas prosseguiam ad infinitum.

É esta a verdadeira origem da teoria do Eterno Retorno atribuída a Nietzsche e à sua loucura (para além da sífilis que o atormentou particularmente nos últimos anos de vida). A partir dela, instala-se o desespero perante o Tempo cíclico que se repete até ao infinito, desprovido de uma Causa Primeira que esteja na origem do cosmos, e onde até Deus é mortal.

Fonte http://espectivas.wordpress.com/2009/12/19/a-origem-da-teoria-do-eterno-retorno-de-nietzsche/

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