Tags

, , , , , , ,

Podemos fazer uma analogia entre a nossa vida e uma viagem de trem: sentados à janela, as imagens da paisagem passam rapidamente, e nós procuramos captá-las e interiorizá-las tanto quanto possível. Mas, no fim da viagem, reconhecemos que ficamos vazios: as imagens desvaneceram-se, tornaram-se irreais, e só fica a recordação. Perante a fugacidade das imagens da viagem, temos necessidade de encontrar um “centro” em nós próprios e não já nas imagens que discorrem ao longo da “viagem da vida”. Essa procura do “centro” em nós próprios é a procura ontológica — a procura do Ser —, a procura que sonda o Absoluto e que só é possível mediante a religião.

Quando a filosofia tentou preencher o Absoluto, entrou em auto-refutação. E quando a ciência deixou de ter em conta o Absoluto, deixou de ser ciência propriamente dita e passou a ser ou um ramo da Técnica, ou uma manifestação de religiões políticas, ou mesmo anti-ciência.

Para Santo Agostinho, o Absoluto como exigência lógica faz parte da prova ontológica — ou seja, faz parte da demonstração do Ser, e não propriamente a prova da “existência” de Deus, porque um Deus que existe no espaço-tempo, não existe. Deus não faz parte da dimensão da divisão sujeito/objeto.

Kant traduziu a necessidade dessa procura ontológica em uma situação aplicada à ciência, mediante o denominado “Princípio Teleológico” ou “Princípio da Intencionalidade”, que é, mais ou menos, assim:

Embora não possamos provar que a natureza está intencionalmente organizada [ou seja, embora não possamos provar que existe um desenho inteligente subjacente à organização da natureza], devemos sistematizar o nosso conhecimento empírico vendo a natureza como sendo organizada em função de “uma compreensão” para além da nossa, compreensão essa que nos forneceu leis empíricas organizadas de modo a que nos seja possível uma experiência unificada.

Para Kant — independentemente de sabermos se ele acreditava que o seu Princípio Teleológico era real e suficiente, ou não —, podemos dizer que o Princípio da Intencionalidade era uma “muleta” que permitiria ao investigador científico avançar no seu trabalho de forma segura. Outra “muleta” deste género foi o conceito de “Espaço Absoluto” de Newton [que a atual ciência Einsteiniana diz que não existe, mas que eu tenho muitas dúvidas sobre a razão da ciência atual], sem o qual as teorias da Dinâmica e da atração gravitacional não seriam possíveis.

Kant defendeu as explicações teleológicas ou intencionalistas na ciência, por duas ordens de razão: 1) as explicações teleológicas têm valor heurístico [dão-nos “dicas”] na procura de leis causais; se fizermos perguntas sobre os “fins” intrínsecos à natureza, poderão surgir novas hipóteses sobre os “meios” com os quais a ciência deve prosseguir; 2) as interpretações teleológicas ou intencionalistas contribuem para uma organização sistemática do conhecimento empírico, na medida em que complementam as interpretações causais já existentes.

Mas isto tudo aconteceu antes de Darwin. Depois de Darwin, o princípio teleológico de Kant foi sendo paulatinamente esquecido, a ciência foi entrando em absurdo, e chegou ao ponto de defender a ideia de que o universo surgiu do Nada [Stephen Hawking] e que a vida surgiu por Acaso [Richard Dawkins, e o naturalismo] — sem querer discutir se o conceito de “acaso” faz algum sentido, temos que reconhecer que a ciência atual pretende ultrapassar o limite da nossa capacidade de conhecimento.

Porém, se virmos bem as coisas, a teoria de Darwin não é incompatível com o princípio teleológico de Kant: o que os tornaram incompatíveis entre si não foi a ciência, mas foram as ideologias políticas que “raptaram” a ciência.

Para Kant, cada parte de um organismo vivo está relacionada com o todo, simultaneamente como causa e como efeito. Ou seja, Kant sabia que uma interpretação causal alargada aos processos vitais seria, pelo menos, limitada; as leis causais estabelecem apenas que estados particulares dos organismos surgem a partir de outros estados; e o aparecimento da vida, em si mesmo, não pode ser explicado inteiramente por leis causais. No fundo, Kant antecipou o conceito científico atual de “complexidade irredutível” demonstrado, por exemplo e entre muitos outros, pelo bioquímico Michael Behe.

Fonte: http://espectivas.wordpress.com/2012/05/12/o-absoluto-o-principio-teleologico-na-natureza-e-a-vida/

Anúncios