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A característica fundamental da dialética de Hegel — que marcou a filosofia [materialismo, existencialismo], a política [por exemplo, Karl Marx, Adorno e a Escola de Francoforte], e até a religião [por exemplo, a Nova Teologia de Bonhoeffer, ou a teologia da libertação, no Brasil] — é a ideia de que “o Todo é igual à soma das Partes”.
Se se destruir o pressuposto da dialética de Hegel — ou seja, o princípio baseado em Lavoisier, segundo o qual o Todo resulta da soma das Partes —, então todo o edifício ideológico da dialética hegeliana cai estrondosamente.
O movimento triádico — tese, antítese e síntese —, que é a base da dialética de Hegel, aplica-se também à sociedade na medida em que impede que se conceba o todo [social] organicamente e segundo o princípio de que “o todo é mais do que a soma das partes”.
[o princípio da dialética hegeliana opõe-se, por sua própria natureza, à concepção orgânica do Todo; a “síntese” hegeliana é apenas o processo de transformação da matéria segundo Lavoisier]
Se podemos falar em um holismo em Hegel, é contudo um holismo segundo Lavoisier: “na natureza, nada se cria, nada se perde e tudo se transforma” — sendo que “natureza” é aqui entendida como sendo restrita à matéria , ou seja, a matéria entendida como sendo restrita a tudo aquilo que tem massa e resulta da entropia da gravidade. Em Hegel, embora a Totalidade não seja uma classe de elementos, que se deixe definir — como é normal na lógica — mediante a coleção de todos os elementos que a constituem; contudo, Hegel também exclui que exista algum fator exógeno à simples soma das partes que desempenhe uma qualquer função no sistema [o que me parece uma contradição fundamental].
A maior parte dos intelectuais ainda não se apercebeu de que Hegel é hoje obsoleto. Não se trata aqui de gostar de Hegel ou não gostar: trata-se de constatar uma situação objetiva e verificada.
O fundamento da lógica de Hegel que substancia a dialética hegeliana é, hoje, tão válida como a teoria de Kepler sobre o sistema solar que, foi substituída pela teoria de Newton e que, por sua vez, foi substituída pela teoria de Einstein; e mesmo esta última já foi colocada em causa em muitos dos seus aspectos pela física quântica [chama-se a isto “processo de aproximação à verdade”].
Existe hoje um fenómeno cultural curioso que é o facto de as pessoas se agarrarem à dialética hegeliana como se de uma tábua de salvação se tratasse, mesmo sabendo que se tornou anacrónica. Este fenómeno cultural é eminentemente religioso [religião política imanente] e, por isso, não é propriamente uma questão filosófica no sentido estrito.
A física, através da matemática formal, mas também através da pura observação dos factos, chegou já à conclusão de que o Todo é mais do que a simples soma das Partes, no sentido em que existe um qualquer fator exógeno a um determinado sistema que o torna único ou peculiar [Holismo Físico]. Gödel chegou à mesma conclusão embora por outra via. E, por exemplo, já na década de vinte do século passado, David Bohm demonstrou esta tese.
Se se destruir o pressuposto da dialética de Hegel — ou seja, o princípio baseado em Lavoisier, segundo o qual o Todo é restrito à soma das Partes—, então todo o edifício ideológico da dialética hegeliana cai estrondosamente.
Mas as pessoas não querem acreditar que a sua mundividência se tornou obsoleta: continuam em estado de negação.
 http://espectivas.wordpress.com/2012/04/27/a-dialectica-de-hegel-e-anacronica/
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