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Quem determina uma fonte científica?…. E a realidade?”

via A estupidificação da cultura: o evidente tem que ser demonstrado pela ciência « perspectivas.

· Para o positivismo, os “mundos ocultos” são um anátema.

O grande problema da modernidade e do nosso tempo é o positivismo. Todos nós somos influenciados por ele, consciente ou inconscientemente, porque o positivismo está intrinsecamente ligado a uma série de teorias, tais como darwinismo e o naturalismo. As consequências éticas do positivismo na nossa cultura são gravíssimas.

E dado que a ideia de “mundo oculto” aponta para a metafísica, esta foi também considerada o principal anátema do positivismo. E por isso é que, por exemplo, o positivista Ernst Mach [Círculo de Viena] foi um adversário formidável da teoria atomica: as teorias em torno do “mundo oculto” do átomo eram explícita ou implicitamente negadas.

· Um positivista é essencialmente um burro muitíssimo esforçado.

A prova empírica é útil ao ser humano para se mover no seu habitat (macrocosmos), mas o empirismo não produz mais nada senão provas empíricas. Ou, melhor dizendo: a prova empírica faz parte do “realismo ingenuo”, segundo o qual acreditamos (trata-se de uma crença) que as coisas existem e são conforme as percepcionamos através dos nossos sentidos.

Karl Popper chamou ao realismo ingenuo a “teoria do balde” que ele refuta: para que seja possível compreender uma percepção sensorial no nosso campo de percepção, esta tem que ser “compreendida” através de uma teoria que já existe [previamente] na nossa cabeça, porque a nossa consciência não é uma câmara escura com uma abertura através da qual é reproduzido o “mundo objetivo” — a nossa consciência não é um “balde” onde os nossos sentidos deitam imagens de objetos.

· Poderão dizer: hoje já não existem positivistas porque, nomeadamente, a teoria atomica já é aceite por todos. Porém, a teoria atómica só foi aceite pelos atuais positivistas porque ela foi demonstrada pela experiência; se não tivesse existido a possibilidade de fazer essa demonstração em tempo útil, a teoria atomica ainda hoje seria radicalmente negada pelos positivistas.

· Quando falamos em “realidade”, temos também de incluir nela os “mundos ocultos” que já conhecemos minimamente [de que já temos uma noção], e admitir sempre a hipótese de nela incluir também os “mundos ocultos” que não conhecemos objetivamente mas de que temos uma consciência intersubjetiva. Portanto, a realidade não é composta apenas pelos fatos empíricos — na medida em que a ciência positivista trata a realidade na “terceira pessoa” —; fazem também parte da realidade os fatos intersubjetivos já conhecidos, mas também não podemos descartar a possibilidade de existirem fatos empíricos e/ou intersubjetivos — ou seja: valores! — que o ser humano ainda não conhece.

· O positivismo dogmatiza uma determinada concepção de realidade.

O positivista Rudolfo Carnap fazia as seguintes perguntas: Como sabes isso? Em que fontes se baseia a tua asserção? Quais são as percepções subjacentes à tua afirmação?” Segundo Carnap, tudo o que não fosse percepcionado [no sentido da percepção dos sentidos, ou induzido e deduzido a partir dos sentidos] não era considerado válido ou racional.

· Contudo, o saber humano é, por um lado, inato [não existe tal coisa como a “tábua rasa” dos estóicos] ; e por outro lado, a tradição constitui a fonte mais importante do nosso saber. E depois, o saber tem que estar em concordância com os fatos, sejam estes objetivos ou intersubjetivos; e estes fatos têm que ser analisados e criticados racionalmente [racionalismo crítico, que é diferente do racionalismo de Kant e/ou de Descartes].

Porém, o positivismo constituiu-se como uma ruptura em relação à tradição, ruptura essa que decorre do espírito revolucionário de 1789 e que nos influencia até hoje: quando nega a tradição, o positivismo nega a fonte mais importante do nosso saber, tentando afirmar-se mediante um autoritarismo que tenta fazer com que seja a própria ciência positivista a fonte última do saber — negando o saber inato, o saber da tradição e a ideia de saber como um “saber conjectural” [Karl Popper].

O ser humano tem certezas sem provas, e a ciência tem provas sem certezas; mas um positivista diria de modo diferente: “uma certeza sem provas é um absurdo, e a ciência [positivista] tem as provas das certezas”.

http://espectivas.wordpress.com/2012/04/21/quem-determina-a-autoridade-de-uma-fonte-cientifica/

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