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«É a ciência que estuda a matéria e as transformações por ela sofridas. Assim, não é surpreendente que a química seja fundamental em muitas outras áreas do conhecimento (biologia, geologia, ambiente, medicina, etc.) Experimente encontrar conceitos em que não esteja envolvida matéria (tudo o que tem massa e ocupa espaço). Não é tão fácil como parece. Mesmo as ideias, que são imateriais, não existem sem um suporte físico!»

via De Rerum Natura: O QUE PRECISO SABER SOBRE QUÍMICA.

Reparem na proposição :

“Mesmo as ideias, que são imateriais, não existem sem um suporte físico!”

Dizer que “as ideias não existem sem suporte físico” é a mesma coisa que dizer que um pianista não poderia existir sem piano.

O que é que esta proposição significa? Significa que se não existisse o cérebro humano, a lei da gravidade, por exemplo, não existiria também — porque a lei da gravidade é, alegada e implicitamente, uma “criação ideológica humana” [Kant].

Vejamos uma outra proposição: “os axiomas da lógica, que são imateriais, não existem sem um suporte físico”. Vemos aqui uma inversão da lógica. O que é que está primeiro: os axiomas fundamentais, ou as leis da física que existem em função desses axiomas fundamentais? Se os axiomas fundamentais são a condição da existência das leis da física, é absurdo que se diga que aqueles dependem destes.

Outra proposição “invertida”: “a onda quântica pura, que é imaterial, não existe sem um suporte físico”. Ora, se a Função Ondulatória Quântica é a condição da entropia da gravidade que forma a matéria, como é que podemos dizer que a matéria existe antes da Função Ondulatória Quântica?

Se as ideias só podem existir mediante um suporte físico, então o conteúdo das ideias não existiria se o Homem não existisse. O Homem é, assim, transformado no “fabricante de ideias” sem o qual os conceitos ideológicos não existiriam no universo, e provavelmente o universo também não existiria sem o suporte físico [o cérebro] das ideias do Homem. A esta concepção antropocêntrica do universo chamamos de epifenomenalismo [Thomas Huxley] — que actualmente tem outro nome: a “teoria da identidade”.

Para os epifenomenalistas [ou para a “teoria da identidade”], não lhe passa pela cabeça que as ideias existam independentemente do cérebro que as descobre: pelo contrário, eles pensam que o Homem não descobre as ideias que já existem, mas antes cria as ideias que nunca existiram. Em última análise, para o epifenomenalismo, o Homem é a condição da existência do universo.

Para a “teoria da identidade”, as ideias não possuem qualquer realidade própria, sendo apenas um produto da actividade neuronal. Aquilo que é primário [aquilo que está em primeiro lugar] são os processos químicos e físicos nos neurónios, que decidem o que eu penso, o que faço e o que sou.

Karl Popper demoliu a “teoria da identidade” quando demonstrou que esta teoria não pode ter qualquer sentido se obedecer aos seus próprios pressupostos: se as minhas ideias não podem existir sem suporte físico, ou seja, se as minhas ideias são produtos e portanto, efeitos, da química que se processa no meu cérebro, então nem sequer é possível discutir a “teoria da identidade”. Esta teoria não pode ter qualquer pretensão de verdade, visto que, por exemplo, as provas dela decorrentes são igualmente química pura. Se alguém defende uma teoria contrária, também tem razão, dado que a sua química chegou a um resultado diferente. Karl Popper chama a esta armadilha lógica de “pesadelo do determinismo físico”.

Para o laureado Nobel, John Eccles, a relação entre o mundo das ideias e o cérebro poderia ser imaginada à semelhança da relação entre o pianista e o piano: embora o pianista precise do piano para tocar, ele pode subsistir sem piano. Dizer que “as ideias não existem sem suporte físico” é a mesma coisa que dizer que um pianista não poderia existir sem piano.

http://espectivas.wordpress.com/2012/04/19/um-exemplo-da-etica-determinista-propalada-por-uma-certa-ciencia/

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