Quando compro meias, compro-as todas iguais e da mesma cor, para não ter trabalho adicional de juntar os pares depois de lavadas. De modo semelhante, as minhas camisas são todas iguais e da mesma cor, para não ter que perder tempo a escolher a camisa da manhã. E o mesmo se aplica às minhas camisetas  que uso: são todas iguais em duas cores: azuis ou brancas; porque se uma delas se estraga, não tenho disso pena porque tenho uma outra igual à minha espera no guarda-roupas. E sobre a igualdade na minha vida, estamos conversados.

O que pode ser igual é a relação que temos com as coisas, e não as coisas em si mesmas que nunca serão iguais entre si, quanto mais não seja pela ação do tempo. E, diga-se para que se evitem mal-entendidos, que o ser humano não é propriamente uma coisa, um objeto, ou um meio utilizado para atingir um fim.

Porém, existe um conceito de igualdade diferente daquele a que se referiu Dilma Roussef, e que foi traduzido pelo saudoso Agostinho da Silva:

“Só vale a pena discutir com pessoas com as quais já estamos de acordo quanto aos pontos fundamentais; só aí se mantém, na pesquisa, a fraternidade essencial; tudo o resto é concorrência, batalha, luta pelo triunfo; não menos reais por serem disfarçados.”

Este tipo de igualdade/desigualdade racional de Agostinho da Silva, que diz respeito às ideias, corresponde à noção de noüs, de Aristóteles. E fico sem saber, com certeza, se Dilma Roussef se referia à igualdade/desigualdade racional — a das ideias —, se à desigualdade irracional e emocional das coisas em relação a nós, que proíbe o diálogo entre desiguais amestrados pela tirania da desigualdade das coisas exteriores — porque a igualdade/desigualdade é, neste último caso, determinada de fora para dentro da alma de quem assim pensa.

Eu nunca poderia discutir com uma pessoa se não estivéssemos de acordo quanto aos pontos fundamentais e só por essa razão; mas não me passaria pela cabeça deixar de discutir com uma pessoa só porque esta teria um guarda roupas colorido e diverso, e eu não o tivesse porque não pudesse ou não quisesse.

Quando Dilma recusa o diálogo com outrem em função da tirania da relação de desigualdade que ela tem com as coisas [ou “desigualdade emocional”], e não em função de uma "desigualdade racional", o que ela está a fazer é transformar a desigualdade em um fim em si mesmo e, por isso, imprescindível à sua própria vida. Para Dilma, é a desigualdade que se transforma no fim da sua ação política. Ou seja: “é concorrência, batalha, luta pelo triunfo; não menos reais por serem disfarçados”

 

http://espectivas.wordpress.com/2012/04/16/mensagem-de-agostinho-da-silva-para-dilma-roussef/.

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