Sendo que a ética é exclusivamente humana [porque a ética é, por princípio, racional], podemos interpretar eticamente a natureza; e essa interpretação [racional] da natureza, por sua vez, influencia a forma como concebemos a ética. O atual relativismo ético tem a ver com uma interpretação errada da natureza: o darwinismo.

É absolutamente certo que Darwin se baseou em Malthus para delinear a sua teoria da seleção natural.

Malthus procurou demonstrar que a explosão demográfica, associada à escassez de recursos alimentares, conduz a uma competição selvagem, a uma seleção cruel dos mais fortes e ao extermínio dos menos resistentes. Porém, segundo a teoria de Malthus, mesmo os mais fortes são pressionados pela competitividade: são coagidos a uma intensificação de esforços. É assim que a competição conduz a uma restrição da liberdade dos mais fortes, por um lado, e ao extermínio dos mais fracos, por outro lado. A visão darwinista da realidade é determinista, dantesca e niilista.

Esta visão de Malthus entrou pela teoria de Darwin adentro. Entre Darwin e Malthus existem poucas diferenças no que respeita às respectivas mundividências. O organismo vivo é entendido como um ator puramente passivo face à pressão exterior da natureza: a pressão seletiva do organismo vivo é exercida exclusivamente a partir do exterior e, nesta medida, não resta ao organismo vivo nenhuma liberdade. Darwin retira a liberdade do organismo vivo mediante o conceito de mutação genética aleatória — ou o “mero acaso” que preside à mutação genética. A concepção darwinista da vida deu origem ao mito do “gene egoísta” de Richard Dawkins que, por sua vez, esteve na origem do determinismo da “sociobiologia” que marca, ainda hoje, a nossa cultura e a nossa ética.

A visão de Malthus e Darwin está errada, porque é evidente que existe uma pressão seletiva interior mais forte do próprio organismo vivo em relação ao meio ambiente ou sobre o mundo exterior. E esta pressão seletiva interior do organismo vivo em relação ao mundo exterior traduz-se em formas de comportamento por parte do próprio organismo vivo, que podem ser concebidas como escolhas de hábitos vitais e de meio circundante — o que significa que para o organismo vivo é importante a escolha de “amigos”, a simbiose, e sobretudo o mais importante biologicamente: o acasalamento.

Destas duas concepções diferentes da vida e da natureza — por um lado, o organismo vivo darwinista, passivo e sem liberdade e, por outro lado, o organismo vivo ativo e que procura a liberdade, — resultam dois sistemas éticos diametralmente opostos e absolutamente irreconciliáveis.

Por exemplo, é sabido que o Papa Bento XVI é um defensor acérrimo da ecologia [proteção da natureza], de acordo, aliás, com a tradição da Igreja Católica Apostólica Romana. Mas a concepção ecológica da Igreja Católica é diferente da concepção ecológica que se desenvolveu, ao longo do século XX, no seguimento da mundividência malthusiana e darwinista acerca da natureza e da sua interação com organismos vivos.

A visão malthusiana e darwinista acerca do organismo vivo passivo conduziu ao atual ecofascismo, na medida em que retira a liberdade à vida. Em contraponto, a visão [ecológica] da Igreja Católica acerca do organismo vivo ativo implica a ideia de organismo constantemente ocupado na resolução de problemas, ou seja, a de um organismo vivo livre que exerce uma pressão seletiva interior em direção ao mundo exterior.

O relativismo moral atual liga-se intimamente com a visão errada do darwinismo que estabelece o organismo vivo como um mero sujeito passivo, sujeito a mutações genéticas aleatórias, no processo de evolução. E é em função dessa visão errada, malthusiana e darwinista da natureza, que hoje se defende, por exemplo, a legitimidade do aborto ou do “casamento” homossexual que se inserem numa visão determinista da vida; e essa visão errada da natureza impõe uma ideologia escatológica e neognóstica de “salvação da humanidade” mediante soluções contra-natura.

http://espectivas.wordpress.com/2012/04/17/a-ligacao-entre-a-etica-e-a-biologia/

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