A palavra ética surgiu do grego “ethos”, sendo traduzida para o latim como “morale”,ambas carregando o mesmo significado: conjunto de condutas, aspectos relativos aos costumes. Importante notar que as duas palavras têm praticamente o mesmo significado apesar de serem diferentes visto em um processo de inter-relação complementar.

Sócrates foi o primeiro filósofo a pensar no conceito abstrato do que é ética, porém foi Platão que deu uma introdução a definição sistemática do termo, sendo concretizada com Aristóteles. A filosofia platônica diz que: “a ética como uma qualidade do sábio, pois apenas pelo conhecimento se chega a razão e ao controle das iras e desejos, logo, a ser éticos (PLATÃO, 1967). Destarte, ser ético em Platão (1950) exige como pressuposto basilar o controle dos sentimentos e desejos (expressos majoritariamente pelos anseios corpóreos), ou seja, não se é ético no sistema platônico sem o controle e a submissão corpórea ao reino das idéias. Aqui o corpo não passa de um recipiente no qual se deposita o verdadeiro maná dos humanos, sua alma, sempre superior a carne”. Platão também narrou um mito, a conversa entre Protágoras e Zeus, em que o deus grego para compensar os defeitos da humanidade, lhes deu senso ético.
Aristóteles dizia que a principal função da ética está em delimitar o bom e o ruim para o homem, sendo que a dualidade corpo-mente se arquiteta como o principio basilar de seu sistema teórico. E segundo Aristóteles também, as ações do homem tendem para o bem materializado na elevação do pensamento e escravização do corpo a alma.


Porém, a definição de ética de Aristóteles era puramente filosófica, abstrata, e era inalcansável para a maioria da população “ignorante”. E por isso o povo foi buscar a ética na religião. Desde então o conceito de ética ficou atrelado ao religioso.


Só com Protágoras, um sofista da antiguidade grega, separar a ética da religão, a ele se atribui a frase: “O homem é a medida de todas as coisas, das reais enquanto são e das não reais enquanto não são.”. Para Protágoras, os fundamentos de um sistema ético dispensam os deuses e qualquer força metafísica, estranha ao mundo percebido pelos sentidos, entretanto, ainda assim o conceito de ética/moral ainda está fortemente ligado a religião. Por exemplo, podemos citar Dostoievisky: se Deus não existe tudo está permitido, logo, qualquer noção de liberdade, democracia, progresso ou igualdade é jogada por terra. Vale apenas o aqui e agora, vive-se para o presente, morre-se também por ele.
Epicuro, outro filósofo, deu outra definição para ética, ele dizia que a felicidade se encontra no prazer moderado,no equilíbrio racional entre as paixões e sua satisfação, fundando assim o hedonismo.
Já os estóicos, após a morte de Aristóteles, a filosofia estóica tem como base a felicidade, assim como Epicuro.

Muitos anos mais tarde,Santo Agostinho procurou conciliar os ensinamentos de Jesus e a racionalidade metafísica dos pensadores gregos, sendo que a reflexão sobre o bem e o mal tomaram boa parte de seus estudos teóricos e filosóficos. Para Agostinho (1968), a história humana é a história da redenção, tal como colocavam os estóicos, tendendo para a realização do bem e da felicidade de maneira plena e tendo por objetivo final a caminhada rumo a Deus.

No período Renascentista, surge outro nome “de peso”, Maquiavel. Ele revolucionou o conceito de ética uma vez que promove a independência da política em relação à moral, cuja máxima residia em tirar o máximo proveito possível de determinada situação. Neste universo os fins justificam os meios, sendo que o propósito do homem não era ser bom, mas alcançar a felicidade e o poder a qualquer custo, mesmo que este custo passasse às vezes pelo aniquilamento da diferença, do outro. Nesse mesmo período surgem vários filósofos como Hobbes, por exemplo. Este dizia que o homem era essencialmente mau,precisando de um sistema coercitivo material e espiritual para controlar seus impulsos. Logo, a ética de Hobbes (1998) tinha como única função o controle e o policiamento dos homens a fim de que estes não se digladiassem por quaisquer motivos fúteis.

No período Iluminista, surge outro grande filósofo: Kant. Ele dizia que: os seres humanos devem ser encarados como fins e não meios para o alcance de determinados interesses. Em suas palavras (1997, p.15): “por natureza somos egoístas, ambiciosos, agressivos, destrutivos, cruéis ávidos de prazeres que nunca nos saciam e pelos quais matamos, mentimos ,roubamos, et.”, e, por isso, a necessidade premente de uma ética que estabeleça um conjunto de valores que condicione os seres humanos favoravelmente a existência da própria coletividade. Para Kant (1980) nós deveríamos nos submeter ao dever, cuja principal função reside em controlar nossos instintos.

Daí passamo a Karl Marx, que nega a ética em qualquer plano de constituição classista. Ele e Engels viam na ética de seu tempo uma ferramenta para manipular o povo, afirmando assim os valores burgueses. Apesar de Marx pouco citar a ética e a moral em seus textos, é bom destacar que ele desnaturalizou a idéia das mesmas. De acordo com Marx (1996) a história humana caminharia rumo a uma maior humanização e libertação do homem perante a realidade natural, sendo que as transformações em seu modus operandi conduzir-nos-ia dialeticamente a este caminho. E exatamente devido a este elemento, Marx, que concebia a ética em um plano subjetivo, a considerava como irrelevante para a transformação da sociedade.

Após Marx, Nietsche também desempenhou alguns pensamentos filosóficos sobre a idéia de ética e moral, rejeitando uma visão moralista de mundo e colocando-a num plano terrestre do presente, sendo que o mais importante passa a ser o que acontece agora, futuro e passado pouco dizem respeito à ética ou a moral. Novamente a matéria volta a ficar submisso ao espírito já que pensar é visto como um processo de submissão do corpo ao pensamento, contudo, paradoxalmente, atribui os valores éticos ao campo das emoções e não da razão, sendo que o homem ético pode ser definido como aquele que não reprime seus instintos, desejos e emoções, mas os concretiza em atos libertários.
Freud (1978) também deu sua contribuição ao desenvolvimento do tema ao tratar sobre temas considerados tabus na sociedade. O desejo sexual infantil, a descoberta da esfera do inconsciente, o complexo de Édipo e a delimitação de um tripé arquitetural na coordenação das volições humanas (id, ego e superego), colocaram de pernas para o ar muito do que anteriormente sabíamos sobre a ontogênese e o desenvolvimento dos seres humanos considerados sob uma perspectiva sócio-biológica, fato que exerce uma profunda modificação principalmente na forma com que os adultos passaram a interpretar as crianças.

Foucault,um filósofo já contemporâneo,diz que em termos epistemológicos sobre a ética se ancora nos escritos de Kant (1980), traz consigo a importância da alteridade para pensarmos sobre a moral. Para o referido autor (2001), nenhum valor pode ser considerado bom ou ruim sem a refração pelo seu oposto constituinte. A diferença é um valor caro à Foucault (2001), sendo que inúmeros padrões consagrados pela aristocracia e burguesia são redimensionadas após as análises do filósofo francês, tais como a questão da loucura, dos padrões homo e heterossexuais, da beleza, do poder, do corpo, dentre outros.
Já em Gramsci (1981), Habermas (1989) e Sartre (1977) podemos notar determinada continuação, guardadas as respectivas proporções, de uma linha de pensamento cujas raízes estão fincadas em Marx. Gramsci (1981) se destaca por sua práxis filosófica, Habermas (1989) por sua dialógica comunicativa e Sartre (1977) pelo seu existencialismo marxista, sendo que todos têm como pressuposto basilar a necessidade da construção de uma nova sociedade, ainda que por caminhos diferentes, e a premência na crítica aos valores não democráticos estabelecidos pelo sistema capitalista de produção.
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