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Não é pacífica a evolução das interfaces gráficas open source. O caráter comunitário, que é sua grande força criadora e impulsionadora, também serve como um grande complicador na hora de definir rumos, com correntes conservadoras e progressistas permanentemente se engalfinhando.

Observando de fora, frequentemente parece uma situação injusta para os desenvolvedores e outros participantes diretos na criação do software, pois o desenvolvimento ocorre de forma aberta e transparente. Os novos recursos inseridos são do conhecimento de todos e atendem a solicitações da própria comunidade e, mesmo assim, na hora que uma nova versão sai do estágio beta para o de produção, uma parcela bastante visível dos usuários reclama porque a nova versão é diferente da anterior.

Sim, no parágrafo acima eu simplifiquei demais a situação, e muitas vezes os usuários em questão criticam aspectos específicos em que o ganho representado pelas mudanças é questionável. Mas isso não torna menos complicada a situação de quem gastou longas horas de trabalho implementando mudanças que, muitas vezes, surgiram também dos pedidos insistentes de outros usuários.

overviewGnome (Foto: Reprodução)

O ambiente gráfico GNOME é um dos que atualmente passam por essa categoria de inferno astral no que diz respeito às expectativas de parte de seu público: após uma longa lua de mel com os usuários, e anos de sucesso como o desktop default de algumas das distribuições Linux mais populares, o GNOME 2 (que foi a série corrente entre 2002 e 2011) foi sucedido pelo GNOME 3, teve seu shell substituído pelo Unity na distribuição Ubuntu, e a partir daí passou a viver um torvelinho de opiniões conflitantes.

De um lado, é claro, estão os defensores e numerosos usuários satisfeitos com as novas opções de design e interação adotadas no GNOME 3, apesar das diferenças marcantes em relação à simplicidade quase espartana da versão anterior que foi popular durante um período tão longo.

De outro, e sempre muito visíveis, estão os partidários do Unity, uma camada que substitui no Ubuntu os aspectos mais visíveis do GNOME, embora não faça parte deste projeto e se apoie sobre os componentes dos bastidores deste ambiente.

Em uma terceira quadra, na qual me alinho, se posicionam os usuários satisfeitos do GNOME 2, que não apreciaram as mudanças que ocorreram na longa transição para o GNOME 3, iniciada em 2008, e que teve seu primeiro lançamento para o público em geral recentemente, em 2011.

Não é a primeira vez que algo assim acontece (a revolta dos usuários no lançamento do KDE 4 talvez tenha sido ainda maior, por exemplo), e, certamente, não será a última. Faz parte da dinâmica do código aberto, e o tempo se encarrega de apontar quais as vertentes que ficarão satisfeitas, muitas vezes incluindo concessões de parte a parte que contribuem para refinar versões futuras.

Pessoalmente, embora me inclua no grupo dos usuários que prefeririam a continuidade da série GNOME 2 do que as mudanças representadas pelo GNOME 3, guardo a convicção que atualizações futuras tornarão o sistema mais atrativo para os usuários hoje recalcitrantes.

Mas na condição de observador constante da dinâmica dos projetos de código aberto, um elemento especial me atrai a atenção nesta fase do processo: os usuários e grupos que, atentos a uma solução para o impasse, estão buscando alternativas intermediárias com potencial de não apenas oferecer um caminho que impeça que os insatisfeitos se afastem, como ainda podem ajudar a guiar uma solução no âmbito do projeto como um todo.

Um exemplo é a recente notícia de que o Ubuntu 12.04, que sai no mês que vem e é fortemente baseado no Unity, trará uma opção de configuração chamada GNOME Classic, cujo visual e comportamento serão imediatamente familiares a quem tem como referência de ambiente o GNOME 2.0.

gnoclassicUbuntu 12.04 (Foto: Reprodução)

Para ativá-la, basta instalar o pacote gnome-panel e depois, no seletor de ambientes disponível na tela de login, selecionar o GNOME Classic.

Outra evidência da importância do caminho intermediário é o projeto Cinnamon, surgido no âmbito da distribuição Linux MINT mas também disponível em pacotes para Ubuntu, Fedora, openSUSE, Arch Linux, Gentoo e mais.

O Cinnamon tem algo em comum com o Unity: é um projeto construído usando os fundamentos do GNOME 3, para oferecer uma experiência de usuário diferente da que vem nele por default. Mas neste caso específico, a experiência de usuário que ele busca oferecer é uma que lembra o visual e o comportamento do GNOME 2 clássico, o que me agrada.

Manter projetos em paralelo, alternativas intermediárias e toda a fricção entre comunidades e desenvolvedores que esse processo gera é um grande esforço que, em parte, é desperdiçado e poderia ser melhor aproveitado se todos estivessem em sintonia.

Mas o processo de construção de consenso em comunidades descentralizadas é complexo, e no momento não temos sintonia no que diz respeito a este tema. E assim a disponibilidade de pessoas motivadas a colocar mãos à obra para construir as soluções que desejam usar acaba sendo um grande fator que acaba (mas só no médio prazo) promovendo a solução que vai agradar ao maior número de pessoas possível. Mesmo que ela seja o GNOME 3.

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