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Esta era de excesso de informações fez com que eu desenvolvesse uma espécie de TOC digital. Sou dessas pessoas que ficam de olho constante naquela barra laranja do Twitter que constantemente atualiza a quantidade de “new tweets” postados em minha timeline. Também sofro, como o Cris Dias, da “ansiedade de inbox zero”, que faz com que eu consulte minha caixa postal com regularidade irritante. E não são raras as vezes em que apelo ao botão de “marcar tudo como lido” do meu leitor de RSS, sentindo um certo alívio catártico ao renunciar a acompanhar toda a produção de conteúdo acumulada pelas centenas de feeds que assino.

É fato: nenhuma pessoa, do alto da sanidade que ainda é capaz de manter neste mundo insano, é capaz de acompanhar todas as novidades e informações que nos são bombardeadas por revistas, jornais, sites, mensagens de SMS, canais de TV, yada yada yada. Ainda assim, há quem tente se manter em modo update constantemente ativado.

Aquele que ficou ansioso pela chegada do convite para acessar o Pinterest hoje aperta a tecla F5 de meia em meia hora a fim de saber se seu perfil no Facebook já está com os novos recursos anunciados no Mashable. Está ansioso por trocar seu smartphone adquirido no mês passado por um novo modelo qualquer recém-anunciado na CES ou na CeBIT. Fez questão de encomendar o new iPad logo após o evento da Apple. E mantém dezenas de abas abertas em seu navegador, como se dessa forma fosse capaz de manter-se a par de todos os assuntos dos últimos 15 minutos delatados pelos Trending Topics do Twitter.

Não é preciso ser guru digital para constatar que tamanha avalanche de informações resulta em ruído ininteligível aos sentidos. Recordo que, há pouco mais de um mês, estive em mais uma edição da Campus Party Brasil constatando como seria o Twitter na vida real, com centenas de pessoas falando ao mesmo tempo sobre os mais diversos assuntos: um pandemônio sonoro capaz de tirar a sanidade e a capacidade cognitiva do mais zen dos monges budistas. Por mais que as centenas de palestras, oficinas e mesas de debates da Campus Party fossem interessantes, só pude ter uma melhor dimensão de todos os conhecimentos e conteúdos que foram produzidos no evento quando saí daquela acústica digna de praça de alimentação de shopping em hora de almoço e voltei para o sossego da minha casa.

Cartaz Google (Foto: Reprodução)Cartaz Google (Foto: Reprodução)

É preciso manter uma certa distância temporal e espacial para que sejamos capazes digerir as informações que engolimos sem mastigar na correria desabalada do dia-a-dia. Há um cartaz, criado por Joe Newton, que diz o seguinte: “Google Before You Tweet is the new Think Before You Speak”. Ou seja: “consultar o Google antes de tuitar” é o novo “pense antes de falar”. Reflexo destes tempos de ansiedade informativa, em que produtores de conteúdo esquecem a necessidade fundamental de apurar dados e consultar outras fontes antes de reverberar o primeiro boato ou rumor que lêem, republicando-o em seus perfis no Twitter, Facebook, Tumblr e dezenas de outros canais que fomentam a nossa esquizofrenia virtual.

Os avanços tecnológicos trazem o mundo para a nossa casa em questão de segundos. Em compensação, nos afogam de informações que, se não forem devidamente filtradas e passarem por alguma espécie de curadoria, transformarão nossos cérebros em sótãos constantemente abarrotados de lixo, não deixando o mínimo espaço para organizar as coisas de modo que façam algum sentido.

Eu, que ando terceirizando minha memória, tornando-me cada vez mais dependente da agenda do celular para guardar números de telefone ou dos avisos do Facebook que me lembram de datas de aniversário, sinto que meus neurônios estão pedindo por arrego. E a imagem que me vem à mente é de um trecho de “Funes, o Memorioso”, conto de Jorge Luis Borges, no qual o escritor argentino afirma: “Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No mundo abarrotado de Funes não havia senão detalhes, quase imediatos.” Do que adianta justapor cada vez mais informações, se as pessoas estão perdendo a capacidade de articulá-las e limitam-se a retuitar o que foram capazes de ler nos últimos 15 segundos?

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